Saiba mais sobre cookies na seção Política de Cookies, incluindo a possibilidade de retirar o acordo.
LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS
Este livro não indica o nome de quem o escreveu. A primeira evidência sobre o seu autor encontra-se na introdução acrescentada à mais antiga tradução existente, a Septuaginta, onde lemos: “E depois que Israel foi levado em cativeiro e Jerusalém ficou desolada, o profeta Jeremias não se consolou e lamentou Jerusalém nestas lamentações e, com o coração amargo, suspirando e gemendo, disse”. O Talmude judaico, que contém as mais antigas tradições, afirma: “Jeremias escreveu seu livro, o livro dos Reis e Lamentações”. A ideia de que Jeremias foi o autor das Lamentações parece correta, pois em 2 Crônicas 35:25 se faz menção das suas lamentações pela morte de Josias, o que, no entanto, não deve ser confundido com o livro canônico de Lamentações, do qual falamos agora. Quem estaria mais qualificado do que Jeremias para escrever este livro que chora o cerco e a queda de Jerusalém e o exílio que se seguiu? Ele foi, sem dúvida, composto por uma testemunha ocular da calamidade lamentada. As palavras e expressões de Lamentações trazem evidências de que Jeremias é seu autor, pois há muitas semelhanças de linguagem e estilo com o livro profético que leva o seu nome. Por todas essas razões, as versões modernas da Bíblia atribuem corretamente ao livro o título “Lamentações de Jeremias”.
Alguns sustentaram que Jeremias teria escrito este livro por ocasião da morte do rei Josias. No entanto, seu conteúdo descreve de maneira tão perfeita e vívida os horrores, os castigos e os sofrimentos do cerco e da queda de Jerusalém, que demonstra claramente estar relacionado a essas tragédias e calamidades nacionais o motivo de suas dolorosas lamentações. Pela intensidade das emoções expressas e pela vivacidade das cenas narradas, parece evidente que o profeta escreveu suas lamentações pouco tempo após a queda da cidade, quando os acontecimentos terríveis ainda estavam vivos e claros em sua mente.
O livro está dividido em 5 capítulos, que são 5 poemas, 5 cânticos fúnebres, completos em si mesmos. Os capítulos 1, 2 e 4 contêm 22 versículos, cada um deles começando com uma letra diferente do alfabeto hebraico. Assim, os 22 versículos iniciam com as 22 letras do alfabeto hebraico, em ordem alfabética. Portanto, como aprendemos na lição dos Salmos, esses poemas são poemas alfabéticos ou acrósticos. O capítulo 3 segue também essa regra, mas nele três versículos consecutivos começam com a mesma letra hebraica, e assim são dispostos alfabeticamente 66 versículos (como o Salmo 119, só que o salmo tem 8 versículos consecutivos que começam com a mesma letra, em vez de três). Embora o capítulo 5 tenha 22 versículos, em sua construção não é seguida a ordem alfabética. O fluxo das emoções corre com força e profundidade nesses poemas admiráveis. Após o retorno dos israelitas do cativeiro, este livro era lido todos os anos, no 9º dia do quinto mês (Ab), e, muito tempo depois, os peregrinos judeus recitavam alguns de seus versículos junto ao Muro das Lamentações do atual Jerusalém.
O último capítulo do livro de Jeremias narra os acontecimentos históricos dos quais resultam os cinco cânticos fúnebres das Lamentações. Trata-se do fundamento histórico do livro das Lamentações. A exclamação inicial do lamento deplora a desolação: “Como está sentada solitária a cidade, outrora tão populosa!” (Lam. 1:1). As lamentações em lágrimas colocam em contraste a triste realidade e, narrando a história das calamidades que atingiram Sião, antes tão festivo, os poemas aprofundam cada vez mais a descrição do cerco e da queda de Jerusalém em 607 a.C. Judá foi levado cativo, habitou entre os pagãos, foi incessantemente perseguido, enquanto Sião jazia desolado. As causas das calamidades são, evidentemente, os numerosos pecados; a justiça de Jeová em permitir a queda da cidade rebelde é dolorosamente reconhecida. Mas as lamentações se erguem contra os antigos amigos que se transformaram em inimigos no tempo da calamidade e que se alegraram com sua queda. Que a maldade deles possa chegar diante de Jeová, e que sobre sua cabeça caia a mesma recompensa! – 1:2-22
Uma revelação importante encontra-se no segundo poema, ou capítulo 2: a destruição pela qual Sião foi devastado. Ela vinha do próprio Jeová; sua fúria era como um fogo derramado para castigar o Israel rebelde. Ele destruiu o seu santuário, onde a verdadeira adoração fora substituída por cerimônias pagãs e ritos idólatras; suas muralhas foram derrubadas e suas portas despedaçadas, aquelas que antes detinham os inimigos armados; os profetas já não recebiam visão alguma da parte de Jeová, apenas imaginações confusas e vãs; eles não lamentaram as ações pecaminosas da cidade nem impediram o cativeiro; o resultado foi que seus inimigos a venceram e a humilharam, erguendo a cabeça sobre a sua destruição. Durante o cerco, a fome lhes tirava a vida; crianças famintas pediam alimento a suas mães igualmente famintas, mas não eram saciadas, e sim devoradas por aquelas que lhes haviam dado a vida. A espada conquistadora cobrava seu tributo de sangue com o número incalculável de mortos espalhados pelas ruas. Os corpos sem vida, espalhados por toda parte, mostravam que somente a fome, a doença e a espada puderam se fartar.
O capítulo 3, escrito na primeira pessoa, apresenta Jeremias, que declara sua dor e intercede pelos filhos de Jerusalém. Ele lamenta suas próprias calamidades, mas exalta a misericórdia e a compaixão de Deus. Esses atributos divinos tornam a dor suportável, dor que logo desaparecerá da vida daqueles que esperam e aguardam com paciência por Jeová. Em meio a todo esse desastre, a justiça não foi violada, e o profeta pergunta insistentemente: “Por que o ser humano haveria de reclamar, enquanto vive? Que cada um se queixe dos seus próprios pecados.” (Lamentações 3:39). O remédio é este: “Vamos examinar nossa conduta, vamos avaliá-la e voltar para o Senhor.” (Lamentações 3:40). Segue-se uma oração de libertação, que parece situar-se no tempo em que as perseguições contra Jeremias eram severas, quando foi lançado na cisterna. Do fundo da cova, sua oração sobe a Jeová nos céus, e o livramento vem. Jeremias suplica que os perseguidores recebam uma punição proporcional às suas ações, o que significa, em sentido mais amplo, que os inimigos de Sião serão destruídos.
O capítulo 4 retoma os pensamentos dos capítulos 1 e 2, mas o ênfase recai sobre o força do contraste entre a antiga glória de Sião e sua condição atual, digna de pena. O esplêndido ouro do santuário do grande templo foi destruído, e os majestosos edifícios e muralhas foram reduzidos ao pó. A fome presente é colocada em contraste com a abundante prosperidade do passado. As ações pecaminosas da cidade são novamente mencionadas; também se recorda seu inútil apelo ao Egito em busca de ajuda. Os dois versículos finais se voltam contra Edom por ter se alegrado com a queda de Sião, lembrando-lhe que a mesma taça amarga da ira chegará também aos seus lábios.
O capítulo 5, o último, lamenta a sorte infeliz de Sião em sua condição de cativeiro e desolação, constituindo uma oração ou invocação a Jeová em busca de libertação. São lembradas as torturas e abusos sofridos sob a mão dos inimigos perseguidores e como a alegria foi sufocada pela dor. Eleva-se o clamor para que Jeová não os esqueça nem os abandone para sempre, mas que volte a eles e lhes conceda novamente dias como os de outrora. Contudo, as palavras finais do poema parecem ser ditas em tom de resignação: “Terás Tu nos rejeitado por completo? Estarás irado contra nós em demasia?” A restauração aparece como algo muito distante e depende unicamente da misericórdia de Deus.